MANIFESTO

A obra de Alma Pessotti não parte da narrativa, nem da experiência subjetiva. Parte da matéria. Aqui, a pintura não representa estados emocionais, não simboliza vivências, não propõe redenção. O que se apresenta é a evidência do que ocorreu — e permanece.

Cor, densidade, peso, interrupção, superfícies que não explicam, apenas sustentam. O trabalho se organiza em ciclos sucessivos de ruptura e contenção. O ponto de partida é sempre o trauma.

TRAUMA, neste corpo de obra, não é memória nem relato. É o estado ativo da matéria. É o durante: quando a superfície ainda não se recompôs, quando o excesso permanece visível, quando a forma falha em conter totalmente o impacto. O preto não ilustra, ele insiste, escorre, pesa, interrompe.

SILÊNCIO aqui não representa calma. Ele é contenção posterior ao choque. Não apaga o ocorrido — apenas o mantém sob controle formal. O branco não é ausência, é retenção, cicatriz, relevo, sombra. A marca permanece mesmo quando o ruído cessa.

Nada aqui pede interpretação, nada oferece explicação. Diante da obra, o observador não é convidado a compreender, mas a permanecer. Não há mensagem, há tempo. Tempo de olhar, de sustentar, de aceitar a matéria como ela se apresenta.

O trabalho de Alma Pessotti não busca consenso, nem conforto, ele opera no limite entre o que colapsa e o que resiste, entre o que se rompe e o que se mantém. Tudo aqui é matéria em estado de evidência.

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